O ano era 1970, a história você já sabe. Brasil (Tri)campeão, campanha histórica, futebol alegre, seleção lendária e Pelé alcançando sua redenção. Na final do torneio o Brasil passeou, um jogo que resumia o futebol de uma seleção e de uma época. A performance do 'Brasil de Pelé' foi tão dominante que levou o grande defensor Italiano, Tarcisio Burgnich a dizer a celebre frase sobre o 'Rei do Futebol': ''Pensei: ele é de carne e osso como eu. Me enganei[...]''
Pelé celebrando seu gol na final de 70 e sendo observado por um incrédulo Burgnich.
Essa é a história ocorrida, porém poderia ter sido bem diferente se não fosse o jogo ocorrido em 17 de junho de 1970. Na semi-final jogada em Guadalajara, o Brasil venceu o Uruguai de virada. Três tentos a um no jogo marcado pelo lendário drible e cotovelada de Pelé no goleiro Uruguaio. Ao mesmo tempo ocorria no Estádio Azteca a partida entre os outros dois semi-finalistas, Itália x Alemanha Ocidental, e é aí que a história começa a ficar (mais) interessante...
Os times chegavam cheios de confiança: a Itália havia se recuperado do maior vexame da sua história, em 1966 quando foi eliminada pela Coréia do Norte SIM, EU DISSE CORÉIA DO NORTE, e fazia uma Copa tranquila e mediana até então. Com um time que tinha como estilo de jogo uma forte defesa CATENACCIO NELES e um contra-ataque rápido. O time italiano contava com jogadores consagrados da Inter de Milão - Que fora bi-campeã européia na década de 60 - Milan -Campeão Europeu na temporada anterior- e Cagliari...Sim, o Cagliari 'era time' nessa época.
A seleção que entrou em campo era a seguinte: Albertosi; Burgnich, Rosato (Poletti), Cera e Facchetti; Bertini e De Sisti; Domenghini, Boninsegna, Mazzola (Rivera) e Riva.
Treinador: Ferruccio Valcareggi.
Enquanto isso a Alemanha, que perdeu a Copa de 1966 no roubo vinha em total ascensão. Como citado anteriormente, o time havia feito uma Copa brilhante em 1966, Franz Beckenbauer (melhor jogador jovem daquela Copa) e Gerd Müller tinham tirado o Bayern de Munique do buraco -SIM, o Bayern de Münique era o equivalente a um Paraná Clube antes desses dois, mas isso é assunto para um futuro post- Uwe Seeler enjoava de fazer gols pelo Hamburgo e Schnellinger, grande defensor que atuava pelo Milan naquela época.
A campanha alemã era boa durante a Copa, após uma pequena fase tranquila, a seleção conseguiu derrotar os atuais campeões mundiais em um jogo que ficou marcado pela liderança de Beckenbauer E PELA VINGANÇA AO ROUBO DE 66.
O time alemão entrou em campo da seguinte forma: Maier; Vogts, Schnellinger, Beckenbauer e Patzke (Held); Schulz e Overath; Grabowski, Uwe Seeler, Gerd Müller e Löhr (Libuda).
Treinador: Helmut Schön.
O árbitro apitou e logo aos 8'' a Itália toma a frente do placar. Boninsegna acerta um belo chute na entrada da área alemã. Com o calor -e o estilo de jogo das duas equipes- a partida foi morna durante todo o primeiro tempo que acabou 1 x 0 para a Azzurra.
No intervalo, o retranqueiro treinador Ferruccio Valcareggi fez uma substituição que mudaria o rumo do jogo. Trocou o veloz Mazzola pelo experiente (e dono da Bola de Ouro) Rivera. Uma substituição que tinha como intenção cadenciar ainda mais o jogo.
O segundo tempo começa da mesma forma que o primeiro acabou, lento e sem grandes lances. Percebendo que a vaca estava rumando ao brejo a Itália não queria mais saber de jogo, o treinador alemão se lançou ao ataque. Trocou Lörh (meia) por Libidula (atacante), e, Patzke (defensor) por Held (atacante).
Resultado, a Alemanha encurralou a Itália, porém próximo ao final do jogo um lance acontece... Cera faz falta dura em Beckenbauer. O líder da seleção alemã cai de mau jeito e desloca seu ombro e lesiona sua clavícula.
Com as duas substituições permitidas já realizadas chegava a seguinte questão: E agora? Beckenbauer vai sair de campo? Jogar com um a menos? 'Jamais essa é a Copa do Mundo, c*ralho', foi o que pensou o alemão.
Talvez o pensamento não tenha sido esse, mas a atitude foi exatamente esta. Franz Beckenbauer, sabendo de sua importância para o time alemão, imobilizou todo o seu ombro/braço/antebraço e continuou em campo de forma heróica. Tamanha raça e liderança lhe renderam o apelido de Der Kaiser, ou em belo português O imperador.
Beckenbauer jogando com sua grave lesão.
Inspirados pelo heroísmo de Beckenbauer, os alemães pressionaram até que aos 45 do segundo tempo chegaram ao empate após cruzamento desesperado de Grabowski e gol de Schnellinger (Aquele que jogava no Milan). Explosão de alegria no Estádio Azteca, a torcida era pró-Alemanha Ocidental, visto que os italianos eliminaram os donos da casa anteriormente no torneio.
A prorrogação veio, logo aos 4 minutos a bola pipoca na área e Gerd Müller não perdoa. Um gol de centro avante, Müller acreditou na falha do zagueiro, correu até a bola e a desviou...a bola rola em câmera lenta para o gol e mal chega a tocar na rede. O placar é 2 x 1 Alemanha.
O jogo segue e quatro minutos depois Rivera cobra uma falta para o meio da área, a bola fica naquele bate-rebate até que Burgnich (aquele da frase sobre o Pelé) chuta para o gol.
Empate de volta ao placar, mas não por muito tempo. Cinco minutos depois Riva recebe cruzamento com liberdade na entrada da área, corta para a sua perna esquerda e finaliza rasteiro cruzado, Itália na frente de novo.
Final do primeiro tempo da prorrogação e os jogadores estão quase completamente esgotados.
Segundo tempo começa, aos 5 minutos após um ESCANTEIO CURTO chupem essa corneteiros a bola vai em direção ao segundo pau da área italiana, desvio de Seeler em direção a Müller que com um peixinho empata o jogo e vai parar no meio das redes do Azteca.
Gerd Müller mostrando como um centro-avante deve atuar quando uma bola sobra na área em uma Copa do Mundo. Gol em que a foto marcante é ele dentro do gol e a bola fora, coisa maravilhosa aprenda Higuaín.
Apesar de toda a simbologia e 'graciosidade' deste gol, mal deu tempo de comemorar. UM MINUTO depois Riva avança pela esquerda e rola para Rivera (O Ballon d'Or) que finaliza no contra pé de Maier.
Golpe fatal, a Alemanha não tem mais forças para a reação e acaba perdendo por 4 x 3.
Clique aqui se quiser checar os lances do jogo com seus próprios olhos.
Um belo jogo, mas você deve estar se perguntando o motivo do título deste texto, pois bem, eu vos explico: Uma final entre Brasil x Itália foi boa, porém uma final entre Brasil x Alemanha seria histórica, os dois maiores de todos os tempos se enfrentando em uma final de Copa do Mundo, é uma pena que o destino não quis assim.
Sim, Der Kaiser, ao menos para mim, é o segundo maior jogador de todos os tempos, perdendo apenas para o próprio Edson Arantes. Sua seleção e seu Bayern são provavelmente alguns dos times 'lendários' mais subestimados da história, mas isso é assunto para um post futuro onde abordarei o assunto. Se não fosse pelo erro ASSALTO de 1966 e a lesão de 1970, provavelmente o futebol não teria um Rei e sim um Imperador.
Um jogador que mesmo atuando na defesa tem dois prêmios de melhor do mundo em casa (Único defensor a conseguir a façanha), um jogador que conquistou tudo que era possível de se conquistar em sua carreira, um jogador que mesmo tendo um dos maiores artilheiros da história no time (Gerd Müller) conseguia ser o destaque, enfim, a lista segue...
Se em 1966 um jovem Beckenbauer (21 anos) já teve um duelo lendário de igual para igual com Bobby Charlton, e um maduro Beckenbauer (28 anos) 'parou' o lendário Carrossel Holandês de Crujff na Copa de 1974, em 1970 um duelo entre Pelé e Beckenbauer provavelmente seria o jogo mais memorável da história do futebol. Podemos apenas especular, porém este com certeza foi o maior jogo que jamais aconteceu.
Der Kaiser.
João Pedro Martins.




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